As frases conspiram. As boas e as más. Elas andam por aí a espera de olhos de ver, ouvidos de ouvir, bocas de falar. As frases são como oxigénio, vivem soltas pelo ar.
Algumas frases cruzaram o meu caminho recentemente. Frases que apareceram, sem pedir licença para entrar, nas minhas incursões pelo mundo virtual. Uma delas, a primeira, a que abre esse texto, surgiu num post da nova (e da moda) rede social Pinterest, dedicada a apontamentos rápidos, citações, fotos e outras coisas que não precisam mais do que meia dúzia de segundos para serem percebidas (não, necessariamente, entendidas).
A ideia de que não podemos decidir quem fica ou não nas nossas vidas é forte. É contra tudo o que queremos, chama-nos de impotentes, delimita o espaço em que aquela criança birrenta que viceja dentro de nós pode actuar. É um alerta: o outro tem o direito de ir (e nunca mais vir) só porque assim deseja, porque descurtiu-nos, achou que o fizemos foi de mais ou de menos, cansou, partiu para outra, seguiu sua vida decidido a não mais nos amar. Também reflecte o contrário, que o outro pode continuar a ser motivo de nosso afecto mas não de convivência. Que o outro faz-nos mal, não nos respeita, não merece a nossa companhia e, mesmo assim… Sim, continuamos a gostar dele. Contra o bom senso, contra o que é direito, contra a opinião dos nossos outros amigos ou amados que, recorrentemente, alerta-nos para o mal que aquele afecto nos traz. No fim, há o verbo “aprender”, diferente de “sentir”, “perceber”, “admitir”. “Aprender” é um termo mais severo. Recorda ordem de pai, conselho de mãe, comando de preceptora alemã. “Aprender” é pôr cá para dentro algo alheio a nossa natureza. Como animais de circo temos que aprender coisas que não faríamos em ambiente selvagem. Somos elefantes que precisam dançar valsa para não levar chicotadas e ganhar alimentos. Somos leões que dão a pata. O problema, senhor domador, cuidado connosco, nunca se esqueça, continuamos leões.
“Chique é ser feliz. Elegante é ser honesto. Bonito é ser caridoso. Charmoso é ser grato. O resto é apenas inversão de valores”.
Outra frase, outras reflexões. Há certas afirmações que só chamam a atenção porque o que a sociedade aceita como regra é o seu contraditório. Se for no dicionário, descobrirá que ser chique nada tem a ver com felicidade. Mas nem precisa consultar o pai dos burros, uma visita às revistas cor-de-rosa basta. Fulaninha é elegante porque tem dinheiro (ou faz questão de parecer ter). Beltranão é bonito porque é podre de bom. Cicranete é charmosa porque é casada com um futebolista, com um político, com um banqueiro, com um participante de reality show ou um ladrão de colarinho branco (as profissões podem ser acumuladas). Ser honesto, caridoso e grato (acrescentaria ser tolerante, cordial, bom cidadão) não costuma dar capas de revistas. Aliás, vamos ser sinceros (outra característica em desuso), quem disse que ser capa de revista é um valor a ser perseguido? Muita gente, eu sei. Elas são livres para dizer o que quiser. Nós somos livres para não ouvir. Nem mais.
Ou como diria o meu Tio Olavo: "Diz-me o que falas, dir-te-ei quem és".

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